Uma pesquisa recente realizada pela Talk Inc revelou um dado alarmante: 1 em cada 10 brasileiros está recorrendo a chatbots de inteligência artificial para desabafar, buscar conselhos e até conversar.
Esse fenômeno levanta questões importantes sobre o impacto da tecnologia na saúde mental e a crescente solidão na sociedade contemporânea.
A Tendência da Terapia com Chatbots no Brasil
O estudo entrevistou 1.000 pessoas com mais de 18 anos, de diversas regiões e classes sociais, mostrando que o uso de chats de IA não está restrito a um único grupo demográfico. Entre os principais motivos citados pelos usuários estão a introspecção, a falta de amigos disponíveis e o sentimento de solidão. Segundo Carla Mayumi, sócia e fundadora da Talk Inc, esse comportamento reflete um problema maior: o aumento alarmante da solidão em nossa sociedade.
“Observamos que tanto pessoas que vivem sozinhas quanto aquelas cercadas por familiares enfrentam a falta de interações significativas”, afirmou Mayumi em entrevista à CNN. “Os chats de IA oferecem um tipo de conforto, sendo sempre disponíveis, sem julgamentos e com uma aparência de empatia.”
A Humanização dos Chatbots: Um Sinal de Apego Emocional
Outro dado intrigante da pesquisa é que 60% dos participantes tratam os chatbots de terapia com a mesma educação e cordialidade que usariam ao conversar com uma pessoa. Expressões como “Oi, tudo bem?” e “Muito obrigado!” são comuns, indicando um nível de apego emocional que preocupa especialistas.
Tina Brand, cofundadora da Talk Inc, alerta sobre o fenômeno do afeto artificial: “Casos de ‘namoros’ ou ‘casamentos’ com IAs ainda são raros, mas o apego emocional aos bots é uma tendência crescente que deve ser monitorada nos próximos anos.”
A Preocupação com a Dependência Emocional
Em agosto de 2024, a OpenAI, responsável pelo ChatGPT, divulgou um relatório expressando preocupações sobre a dependência emocional que pode surgir a partir do uso de IAs mais avançadas. O novo modo de voz do GPT, que emite sons naturais como risadas e expressões de empatia, como “hmmm”, aumenta a proximidade emocional com a máquina, o que pode levar os usuários a confiarem mais do que deveriam nessas ferramentas.
O filme Ela, lançado em 2013, previu cenários de relacionamentos emocionais entre humanos e IAs, e apenas 11 anos depois, estamos vendo uma realidade parecida se desenrolar. O conceito de dependência emocional em IAs é uma preocupação crescente tanto para especialistas quanto para empresas de tecnologia.
Chatbots de Terapia: Uma Solução ou Um Problema?
Embora a conveniência da terapia via chatbot seja atrativa, há preocupações significativas sobre o autoengano que pode surgir. Um estudo conduzido pela Wysa, um chatbot de terapia cognitivo-comportamental, mostrou que os usuários começam a desenvolver uma aliança terapêutica com o bot em apenas cinco dias, mesmo sabendo que estão conversando com um computador.
Relatos de agradecimentos como “Obrigado por estar aqui” e “Você é a única ‘pessoa’ que me escuta” são frequentes nas interações. Muitos usuários afirmam que se sentem mais confortáveis desabafando com uma IA do que com um humano. A instantaneidade das respostas dos bots, contrastando com as sessões de terapia humana que ocorrem uma vez por semana, contribui para esse apego.
O Lado Sombrio: Falhas e Limitações dos Chatbots
No entanto, os chatbots não são perfeitos. No estudo da Wysa, algumas falhas preocupantes foram observadas. Em um caso, o bot tentou convencer um usuário a terminar seu relacionamento com base em inseguranças desabafadas anteriormente. Em outra situação, um chatbot da Woebot Health falhou ao responder adequadamente a uma denúncia de abuso sexual infantil, sugerindo que a situação era “uma bela demonstração de como você se importa com conexões”.
Esses exemplos mostram as limitações críticas dos chatbots. Eles não são substitutos adequados para profissionais de saúde mental e, em algumas circunstâncias, podem até causar danos.
Solidão e Desigualdade: Os Desafios da Saúde Mental
A solidão é uma questão de saúde pública cada vez mais urgente. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a solidão como uma prioridade global, revelando que quase 1 em cada 4 adultos se sente extremamente solitário. Esse sentimento também afeta jovens e adolescentes, que frequentemente relatam a falta de conexões significativas.
O uso de chatbots para enfrentar a solidão está em parte ligado aos altos custos da psicoterapia tradicional. No Brasil, apenas 5% da população faz terapia, e os jovens de classes mais altas são os principais usuários. Para muitas comunidades, principalmente as mais marginalizadas, os chatbots se tornaram uma solução mais acessível para lidar com questões emocionais.
Conclusão: O Futuro da Terapia com Inteligência Artificial
A popularidade crescente dos chatbots de terapia no Brasil levanta tanto promessas quanto preocupações. Enquanto oferecem conveniência e uma sensação de acolhimento imediato, as limitações tecnológicas e o risco de dependência emocional são fatores que devem ser observados de perto. À medida que a solidão e a desigualdade aumentam, o papel da inteligência artificial na saúde mental continuará a evoluir, e cabe a especialistas e reguladores garantir que essa tecnologia seja usada de maneira responsável.